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Santos: “A corrupção é sistêmica na Petroecuador” 

Expreso - Javier Montenegro 25/10/2016

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As denúncias são diárias. As operações da Petroecuador são estudadas com lupa por parte de diversos setores. O governo acusa o ex-ministro e ex-gerente da empresa, Carlos Pareja Yannuzzelli, de ser parte de uma rede de corrupção que afetou projetos. Para o ex-ministro de Energia e ex-diretor jurídico da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Fernando Santos Alvite, este caso é apenas um dos muitos problemas acumulados pela empresa que, em algum momento, foi emblemática.

A suposta rede de corrupção na Petroecuador afeta a imagem do Equador no mercado petroleiro?

No mundo, o Equador é considerado, após 10 anos de governo do presidente Rafael Correa, mais corrupto do que a Nigéria. Pelo menos no setor petroleiro. Observa-se com espanto o que aconteceu.

O que a comunidade internacional quer saber?

Os grandes projetos e suas irregularidades. A repotenciação da Refinaria de Esmeraldas, que o governo anunciou que teria um valor de 180 milhões de dólares, custou 2,2 bilhões de dólares até agora. E isso é ruim. Aplanar os terrenos para a construção da Refinaria do Pacífico custava 50 milhões de dólares e se gastou 1,5 bilhão de dólares. E isso ainda não é nem a pedra fundamental da planta. O terminal de gás de Monteverde deveria custar 160 milhões e custou mais de 600 milhões. Na planta para liquefazer gás, em Machala, os alicerces foram destruídos em seis meses. Os gastos ascendem a 150 milhões em uma planta que não deveria custar nem 30 milhões de dólares. A corrupção é monstruosa. Estes 10 anos foram de uma pilhagem brutal para o setor petroleiro.

Estas obras têm salvação?

A Refinaria de Esmeraldas tem que ser derrubada e construída novamente porque as atividades são suspensas toda semana e os combustíveis produzidos são de má qualidade. A do Pacífico não existe. O terminal de Monteverde tem excesso de capacidade que não será utilizado. A planta de gás desabou. Nestas obras há superfaturamento e redes que mantêm a corrupção. Devemos mudar de cima para baixo esta empresa estatal.

Onde estão os culpados por estas supostas obras falidas e pelos superfaturamentos?

As autoridades apontam para o ex-gerente Álex Bravo, mas ele era o tesoureiro. Isto vai mais para cima. Além disso, é preciso entender que a corrupção arrasta a ineficiência. Quando se realizar um balanço do setor petroleiro nos últimos 10 anos, haverá dados de horror. As pessoas não vão acreditar que seja verdade.

Como essas falhas ocorreram se o vice-presidente Jorge Glas chegou a este cargo justamente para supervisionar os projetos dos setores estratégicos?

Se a cabeça é corrupta, tudo vai mal. A partir da liderança há ilegalidades que escoam para baixo. O que acontece com o ex-ministro Carlos Pareja Yannuzzelli é um exemplo. Deixaram que fosse embora apesar de que, durante meses, sabiam sobre a sua possível ligação com os Papéis do Panamá. Agora saem para distribuir escapulários e denunciar. A corrupção na Petroecuador e nos setores estratégicos é sistêmica. Eu não acho que a empresa estatal tenha um único contrato, assinado neste governo, que seja honesto. Nenhum.
É uma afirmação forte.
Nenhum contrato de alto valor foi fechado através de licitação. Entidades por Tipo de Negócios e de Prestação de Serviços Específicos foram inventadas para que não houvessem licitações. Sem regras claras não pode haver transparência.

Essas entidades foram incentivadas na administração de Pareja Yannuzzelli, mas não foram suas únicas propostas. Vender postos de gasolina e importar petróleo bruto para a Refinaria de Esmeraldas eram opções necessárias?

Não. Ele já havia identificado a empresa para comprar o petróleo bruto, mas isso mostrou que a Refinaria de Esmeraldas e sua reforma não serviram para nada. Não faz sentido que tenham fingido comprar petróleo bruto para uma refinaria melhorada. A vantagem é que a situação foi revelada e a operação não se concretizou. Mas, devo dizer que conheço Pareja Yannuzzelli há muitos anos. Ele trabalhou comigo e era um homem honrado e de classe média até que chegou este governo. Foi aí que se corrompeu. Conheci sua casa em Guayaquil há alguns anos. Era uma casa modesta. Ele e sua esposa trabalhavam na Petroecuador. Eram de classe média e precisavam do trabalho. Mas, com contratos milionários, este país se converteu em um cofre aberto. Todo o mundo pode cometer atos ilícitos e eles se protegem entre si. A saída do país de Pareja não é casualidade. Entre bombeiros não se pisam nas mangueiras. Eu odeio dizer isso como equatoriano, mas há muita corrupção.

O que fazer agora perante esse cenário? O que o novo governo poderia mudar?

O primeiro é que todo contrato seja feito através de licitação: a venda de petróleo e a aquisição de bens e serviços. A venda de petróleo bruto é outro escândalo porque temos apenas dois compradores, a China e a Tailândia. Aí não haveria prejuízo porque antes se realizavam licitações para que o preço do petróleo equatoriano fosse transparente. O novo governo tem que começar do zero e contar com os bons técnicos que a Petroecuador possui. Mas há uma cúpula que deve sair daí devido à corrupção. Eu sou uma pessoa moderada, mas devo dizer que nós caímos no fundo do poço da corrupção.
Mas, a corrupção não é novidade na Petroecuador. As denúncias remontam há décadas. A Petroecuador e a Petroamazonas têm bons funcionários. Eu fui presidente da Diretoria da estatal e há gente séria. Claro que existiu corrupção. Quando se iniciou a exportação de petróleo na década de 70, descobriu-se um enorme caso de suborno. Desde então, houve muito controle e uma comissão foi criada para que as compras e vendas fossem feitas através de licitações.

Qual o efeito interno desta série de irregularidades?

A desmoralização do pessoal da Petroecuador. Não são todos vilões. Os políticos entraram para saquear, mas há pessoal técnico que vê a situação de uma empresa emblemática com indignação.
 

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